Braço do sertão
que esconde
a fraqueza,
a mão na enxada
busca a força
e arruma firmeza.
Miséria exposta
na terra castigada,
corpo acabado
no sol envelhecido,
semblante entristecido,
mas o sonho
no peito é carregado.
Filhos, de um país, esquecidos
por governantes malditos.
Pais desesperados,
descendentes desnutridos,
terra rachada
por ambição tomada
a chuva tão esperada
a água desviada
podridão desenfreada
submundo de pobreza
roubada toda riqueza
vidas se perdendo
o calvário crescendo
o homem forte
não desiste
continua na luta,
acredita e insiste
tenta matar a dor,
e a fome esquecer,
pede a Deus com clamor
Forças para mais um dia
Sobreviver
em busca
do que comer.

Senti
o todo,
o gosto,
da fruta,
do beijo
e do amargo.
Veio o desejo
do abraço
suave,
e na carne
o calor
abrasa,
me queima.
Fim da chama
não aquece,
apaga
e adormece.
Terra fria
que gela
e arrepia
Sinto
o vento,
vem e leva,
besteira
e poeira.
Traz a chuva
que lava,
molha
o corpo
e encharca
a terra,
que fertiliza
e brota.
Se faz
em alimento,
onde
sinto
o gosto
que mantém
a vida
no corpo
já n'alma
o que habita?
e alimenta
é o amor
do que mais
necessita.
Perceber
aquilo
que não
se toca,
mas ali está
enraizado,
plantado.
Cá estou
em lamúrias,
um coração sonhador
que sempre voa
em busca de um amor
Por que sonho?
se sei ser impossível
a um Pierrot
o amor é inalcançável.
Minha sina é devaneiar
e poetizar aquele
momento de felicidade
que por um instante
me foi dado
e logo depois se esvai,
e a tristeza adormecida
acorda...
E a Colombina
distante se vai,
vejo-a nas estrelas
é uma delas,
jamais a terei.
Vivo a desejar,
mas sim sei
o meu destino
já foi traçado,
serei sempre
um Pierrot solitário...
Entre grades
me aprisiono.
Num mundo
de tormentos
me fecho,
não reajo.
Numa cela
em solitário
me entristeço,
me relaxo.
Na penumbra
me escondo,
me torturo.
Num pensamento
tão obscuro
me jogo,
me rasgo.
No profundo
me lanço,
me afundo,
Sinto-me
o tudo
que é o nada
no vazio
o oco que chora
e ecoa
no abismo,
onde ninguém
me ouve
nem ao menos
me vê,
impossível
me encontrar,
pois nem eu mesma
me vejo,
me cego
e me tranco.

A bela do oriente
em arte
o sol que nasce
e se esconde
em seu olhar
aniquilador
só lançado
aos escolhidos,
privilegiados
pela visão
de tão bela
obra-prima
Fascínio
que desperta
pelo mistério
a mulher feita
para ser perfeita
servir e distrair
em gestos delicados
inigualáveis
olhares hipnotizados
seguem a perfeição
em movimentos
incomparáveis
na dança
onde flutua
tão linda
sua voz
ao cantar
enfeitiça,
conquista.
A jóia oriental,
imperial reluz
e aos súditos seduz.
O meu particular
tão meu
escondido
universo fechado
em meio
a tantos sonhos,
tantos pecados,
e a pesadelos entrelaçados
nesse mundo infinito
por tantas vezes me perco,
viajo para distante,
ultrapassando o céu,
descobrindo o horizonte.
Compreender o meu paralelo?
Tão poucos entendem,
o porquê do meu real ser desligado
e o meu imaginário tão vivo.
Sou um ser esquisito
é tudo tão diferente,
o tempo passa, não sinto,
não existe, torna-se insignificante.
Relembro a vida, crio personagens
e me mato e me reinvento
Busco em mim e descubro quem sou,
olhando para dentro
e me perdendo em meu íntimo.
nesse meu labirinto vivo,
tão estranho e tão louco.
Me alimento e me crio.

A caixa de surpresas
O que virá de Pandora?
Uma mulher
inventada por um homem
vinda do barro,
detentora de todos os dons
beleza, adorno e conquista
Hermes, o mensageiro,
ensinou-lhe artimanhas
e lhe deu o dom da palavra
Fez-se então Pandora,
a fêmea por instinto curiosa
abre o jarro a poderosa,
e despeja no mundo a ruindade,
no qual por pouco não se vai
a esperança.
A bela que encanta
e a terra traz o tormento,
uma serpente
envolvente.
O bem e o mal
nesse único ser,
deslumbrantemente
envolvidos.
O dúbio presente
Perfeita combinação
A bela que faz e desfaz
Ela tão cheia de graça
que manda a todos desgraça.
Carrega a maldade e a bondade
Enfeitiça com sua deliciosa malícia
Inteligência com uma graciosidade perversa
O mundo ficou virado,
depois que foi por esse ser encantado.